Por Renan Gutemberg
Escola & Bolsa: Avenue English | 4 semanas de inglês geral + acomodação em 2025
A Ligação que Mudou Tudo
Tudo começou com meu telefone tocando. Eu vi o nome na tela: “Bruna – Instituto Semear”. Era a ligação que eu estava esperando, mas que, no fundo, parecia um sonho distante. Atendi, tentando manter a voz firme. Do outro lado, era a Bruna, a presidente do instituto. Ela foi simpática, mas foi direto ao ponto: “Renan, tenho uma boa notícia… você foi aprovado para a bolsa”.
Eu fiquei em silêncio por um instante, e acho que tive que perguntar “É sério?”, só para ter certeza. Ela riu e confirmou: “Sim, parabéns. Você vai para Cape Town”.
Quando desliguei, fiquei alguns minutos parado, olhando para o nada, com o telefone na mão. A ficha demorou a cair. Eu ia cruzar o oceano. Eu ia para a África do Sul. Foi uma mistura imediata de choque, incredulidade e uma felicidade que mal cabia no peito.
Minhas noites se resumiam a pesquisas frenéticas no Google: “clima em Cape Town”, “o que levar na mala para um mês”, “comidas típicas”, “tomada na África do Sul” (sim, é diferente de tudo). Eu assisti a dezenas de vídeos de viagem, tentando memorizar o mapa da cidade antes mesmo de chegar.
Fazer a mala foi um capítulo à parte. Como empacotar um mês inteiro, para um clima que eu não conhecia direito, em uma mala de 10kg e uma bolsa? Foi um jogo de Tetris com roupas, casacos (me disseram que fazia frio!) e um pequeno estoque de coisas de casa, só por garantia.
A Chegada e o Susto do Elevador
Quando o avião finalmente começou a descer, a primeira coisa que vi foi ela: a Table Mountain. Uma montanha perfeitamente plana no topo, coberta por uma “toalha” de nuvens.
Naquele momento, com o sol batendo, todo o cansaço da viagem sumiu. Eu estava em Cape Town.
Minha primeira descoberta na chegada foi a mais curiosa: meu “deslocamento” para a escola. Meu apartamento ficava no quinto andar do prédio; a escola ficava no quarto. Meu trajeto diário não envolvia trânsito, ônibus ou uma longa caminhada. Era, literalmente, uma viagem de elevador, bem diferente do que eu estava acostumado aqui no brasil.
Essa conveniência era uma faca de dois gumes: era ótimo acordar um pouco mais tarde, mas também significava que eu estava em imersão 24/7. Não havia separação real entre “casa” e “escola”. Às 8h50, eu estava no meu apartamento; às 9h00, pontualmente, eu estava na sala de aula.
A Sala de Aula: Um Mundo em Poucos Metros Quadrados
As aulas iam das 9h às 14h30. Eram intensas. Mas o verdadeiro aprendizado não vinha só dos livros. Minha sala era uma mistura fascinante de nacionalidades: árabes, africanos de outros países (como Angola e Congo) e alguns húngaros.
No começo, era um caos divertido. A comunicação era 50% inglês “quebrado” e 50% mímica. Cada um tinha um sotaque forte, e muitas vezes ríamos de nós mesmos ao tentar explicar algo simples. Mas essa era a beleza. Ninguém estava ali para julgar. Em poucas semanas, aquele inglês “travado” começou a fluir, e as conversas na pausa do café se tornaram a melhor parte do dia.
O Sabor de Cape Town: Pimenta, Frango e Iogurte
Se a sala de aula era uma mistura, a comida era uma explosão. A primeira lição: os sul-africanos adoram frango. Em toda esquina, em todo cardápio, de todas as formas. A segunda lição: eles não têm medo de pimenta. Muitos pratos tinham aquele “kick” apimentado que me pegava de surpresa.
Mas minha maior descoberta gastronômica aconteceu no supermercado. Fui ao corredor de laticínios e quase me perdi. Os iogurtes eram de uma cremosidade absurda, algo que eu nunca tinha visto no Brasil. Além disso, as frutas vermelhas – mirtilos, framboesas, amoras e morangos – eram incrivelmente baratas.
Meu café da manhã virou um ritual sagrado: um bowl gigante daquele iogurte denso, coberto de frutas frescas, era um pequeno luxo diário.
Quarta-Feira: O Dia em que a Cidade Virava Escola
A escola entendia perfeitamente que ninguém aprende um idioma (ou sobre uma cultura) apenas olhando para o quadro. Toda quarta-feira era o dia mais esperado: a “saída pedagógica”. Nesses dias, a cidade era nossa sala de aula.
Nós conhecemos os cartões-postais de verdade.
● V&A Waterfront: Não é só um porto, é o coração turístico da cidade. O cheiro de maresia misturado com o de comida boa, músicos de rua tocando marimba, a roda-gigante… Lá dentro, visitamos o Two Oceans Aquarium, que é espetacular. Ver os pinguins africanos de perto e andar pelo túnel de tubarões foi inesquecível.
● Table Mountain: A subida no teleférico giratório já é uma aventura. Mas nada, absolutamente nada, te prepara para a vista lá de cima. O vento é forte e parece que vai te levar. Você vê a cidade inteira de um lado, as praias do outro, e o oceano infinito à sua frente. É um daqueles momentos em que você se sente minúsculo.
● Camps Bay: A praia mais famosa. A areia é branquinha e o visual é absurdo, com as montanhas dos “Doze Apóstolos” cercando a praia. Parece cenário de filme. Um aviso importante: a água é congelante. Sério. O Atlântico ali não é para amadores. Mas o visual compensava qualquer frio.
A Vida Depois das 14h30
Quando as aulas terminavam, a segunda parte do dia começava. O grupo de estudantes era muito unido. Era fácil combinar as coisas, muitas tardes passamos explorando as ruas do centro, como a Long Street, com suas lojas de souvenirs e arquitetura antiga.
À noite, a cozinha compartilhada do prédio virava um ponto de encontro com minha colega de apartamento. Cada um tentava cozinhar algo do seu país. Foi ali que provei comidas que eu nem sabia que existiam, e onde a amizade realmente se fortaleceu. Falávamos sobre a vida, sobre carreira e sobre os planos para o fim de semana.
O Adeus
Um mês voa. Quando me dei conta, o elevador que me levava do “quarto” (escola) para o “quinto” (casa) me levou para o térreo uma última vez, com as malas na mão.
Saí daquele prédio com um inglês muito melhor, claro. Mas saí também com um paladar mais pimentado, com a memória cheia de paisagens que parecem pintura, e com amigos de continentes que eu só conhecia pelo mapa. Cape Town não foi apenas um destino; foi uma experiência que mudou minha forma de ver o mundo.