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A chance de ver o mundo com olhos solidários

A chance de ver o mundo com olhos solidários

Conhecer outras culturas e ainda ajudar o próximo são os objetivos de quem cai na estrada como voluntário

Fazia apenas dois meses que o terremoto havia devastado o Haiti, em 2010, quando o engenheiro civil recém-formado Gustavo Aguiar, hoje com 25 anos, desembarcou no epicentro do tremor, em Grand Goave, a 50 quilômetros da capital Porto Príncipe, para ajudar na reconstrução da cidade. Ele, que já havia construído moradias pela ONG Um Teto Para Meu País, chegou junto com jovens de vários países com a missão de erguer 100 casas em um mês – e qualificar haitianos para que eles mesmos fizessem as construções posteriormente. Detalhe: Gustavo estava de férias de seu emprego no Brasil.

Como a missão que o engenheiro decidiu encarar, educar crianças na Cidade do Cabo, como faz atualmente a estudante Anastácia Schroeder, ou cuidar de guepardos numa reserva africana, como a bióloga Samara Moreira, são tarefas que exigem espírito solidário e vontade de mudar realidades. E os voluntários podem vir de longe: entidades pelo mundo contam com a generosidade de viajantes que, além de visitar um lugar, estão dispostos a investir tempo – e dinheiro, é verdade – para conhecer e atuar em seus projetos.

“Vi o tamanho do caos que (os haitianos) estavam vivendo”, lembra Gustavo. “Mas só de estar ali para tentar ajudar aquelas pessoas a recomeçar a vida já valia a pena.” Hoje, dois anos após a viagem, ele diz que sente orgulho ao saber que a equipe que formou continua ativa.

Diferenças. Choques culturais (nem todos exatamente agradáveis) ajudam a ampliar a visão de mundo do voluntário. Comer sem talheres e não ter vaso sanitário foram desafios que a estudante de relações internacionais Caroline Tissot, de 21 anos, enfrentou durante quatro meses em Hiderabad, na Índia.

A estudante trabalhou em uma montadora de veículos em um programa da Aiesec (aiesec.org.br), ONG presente em 110 países que realiza cerca de mil intercâmbios por ano. Segundo ela, o choque é importante para se repensar. “Você se volta à sua essência, sai um pouco do automático. Faz uma revisão dos valores que realmente importam.”

Entre dezembro e janeiro, a aluna de engenharia ambiental Isadora Vieira, de 24 anos, encarou contrastes nas Filipinas, construindo hortas comunitárias em um orfanato com mais de 500 crianças e em comunidades carentes. “Eu moravacom11 pessoas de vários países. O choque cultural começava dentro do meu quarto”, diz, lembrando que viveu percalços. “Limpávamos terrenos abandonados e encontrávamos cobras e sapos.” Ela gastou R$ 5 mil pela passagem aérea, porém seus gastos locais eram mínimos.

Retorno. Ao voltar para casa, a experiência do voluntário rende mais que fotos e boas histórias de viagem. Para Filipe Chamusca de Moura, de 30 anos, os cinco meses que passou em um orfanato no interior da Guatemala, em 2003, o ajudaram a mostrar seus valores na hora de concorrer a uma vaga de emprego. “Hoje, quando contrato alguém, também busco por essa experiência no currículo do candidato”, diz.

Para o advogado mexicano Miguel Maldonado, de 29 anos, o voluntariado virou profissão. Ainda na faculdade, ele saiu da Cidade do México para ajudar na reconstrução de uma cidade no sul, também pela ONG Um Teto Para Meu País, após uma inundação em 2007. Depois de passar por Equador e Guatemala, tornou-se, há quatro meses, diretor social da entidade no Brasil. Ganhando para isso.

Em reservas e comunidades, o dia a dia africano
Leões e guepardos de um parque ou bairros da periferia da Cidade do Cabo: vizinhos ideais para compartilhar o cotidiano do continente

A África ainda é a primeira opção no quesito suar para fazer o bem. Por mais que muitos países tenham conquistado avanços significativos, ainda é real a imagem de pobreza do continente, com uma multidão que precisa de qualquer tipo de ajuda. No entanto, além da esfera humana – com projetos em orfanatos e hospitais – há um grande número de programas dedicados à conservação do meio ambiente e, principalmente, à proteção da exuberante vida selvagem.

É possível unir os cuidados ambientais ao aprendizado ou aperfeiçoamento do inglês, graças a convênios entre organizações não governamentais e escolas do idioma. Assim, fica fácil dividir o tempo entre a proteção a chimpanzés e horas em sala de aula.

Recém-chegada da África do Sul, a bióloga Samara Moreira, de 23 anos, passou seis meses estudando animais, especialmente guepardos, na Karongwe Game Reserve, na província de Limpopo, no nordeste do país – para turistas convencionais, um destino de safári. Saía a campo duas vezes por dia com um veículo 4×4 para encontrar bandos de leões e guepardos, por meio de um sistema de radiotelemetria. Além deles, também coletava dados de outros grandes mamíferos da reserva, como elefantes, rinocerontes e hienas.

“A primeira vez que vi o bando de leões se comunicando, rugindo e caminhando foi inesquecível”, recorda. Ela recomenda que qualquer pessoa – biólogo ou não – experimente por algum tempo uma vida no mato, em ritmo menos acelerado. “Lá a gente seguia a luz do sol, internet só existia quando dava para ligar o gerador a diesel. E só tinha trânsito quando um bando de girafas invadia o caminho.”

Ensinar. Também estudante de biologia, Anastácia Schroeder, de 24 anos, optou por um programa voluntário focado na área de Humanas. Desde janeiro, ela vem descobrindo a superturística Cidade do Cabo de um ponto de vista diferente. Vive na periferia da cidade e trabalha na South African Education and Environment Project. A ONG tem projetos educacionais voltados para crianças e jovens.

Até dezembro, sua rotina em duas escolas em um gueto da região será ensinar temas relacionados ao meio ambiente e que tenham conexões diretas com o dia a dia dos estudantes, como lixo, água e nutrição.

“Fico encantada quando meus alunos se interessam pelo tema, pelas atividades que planejei e mostram dedicação e vontade de aprender”, conta a estudante. “Eles são muito inteligentes e esforçados. Acredito que a educação é um dos principais caminhos para o desenvolvimento das pessoas e das comunidades”.

Sensação de espanto que, anos depois, ainda dá saudade
Conseguir um trabalho voluntário fora do País e ter a sensação de estar fazendo algo pelos outros e pelo planeta são ideais que povoam a cabeça de muita gente. Comigo não era diferente. Em 2008, munido de tempo livre e vontade de fazer a minha parte, garimpei opções na internet. No entanto, o processo não foi nada simples. Em uma despretensiosa busca com os termos “trabalho voluntário na África”, surgiram milhares de resultados.

Ao me aprofundar, percebi que a maioria das ONGs estava mais interessada em contribuição financeira do que em mão de obra ou ideologia. Pagando cerca de US$ 1.600, eu teria direito a trabalhar por uma semana ou duas (sem aéreo) – se quisesse ficar três meses, iria à falência. Nada feito.

Após uma longa peneira encontrei o Seven Interchange Network (the7interchange.com), uma rede social em que voluntários se cadastram e ONGs procuram os mais adequados ao seu perfil. Batata! Alguns dias depois estava trocando e-mails com um membro da família Odula (odulafamily.blogspot.com.br), que mantém um amplo projeto educativo em Rusinga Island, ilha no Lago Vitória, o maior da África, a 18 horas em ônibus, táxi e moto desde Nairóbi, capital do Quênia.

A função era interessante: ensinar noções de educação ambiental e sexual a meninos de 14 a 17 anos na Tom Mboya High School. O custo era simbólico – US$ 4 ao dia – apenas para alimentação, já que a hospedagem era na casa da família. O gasto com transporte compensava, visto que despesas por lá foram muito poucas.

Meus três meses ali foram inesquecíveis: o implacável silêncio e a atenção às minhas aulas, o olhar curioso dos meninos que queriam saber cada vírgula do que aquele muzungo (homem branco, na língua swahili) tinha a dizer.

Sem contar as minhas obrigações na casa, como buscar água em lombo de burro, procurar lenha e ajudar o patriarca Michael Odula a carpir o terreno. A imersão foi tamanha que, depois de três semanas sem me olhar no espelho, fazer a barba e nem ver outro branco, me espantei quando dei de cara com outra pessoa da minha cor. Além do carinho da família e da troca de experiências, é desse espanto que sinto saudade.

Fonte: O Estado de S. Paulo / Seção Viagem

Jornalista: Felipe Mortara

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